sábado, 6 de fevereiro de 2010

IPTU Progressivo

O Estatuto das Cidades, lei federal que, dentre outros aspectos relevantes, dá suporte às mudanças estruturais que visam democratizar o acesso à urbanidade, de forma mais democrática, parece estar sendo, aos poucos, incorporada à gestão das regiões metropolitanas e cidades de grande e médio porte. O Estatuto oferece mecanismos de controle e gestão do espaço urbano de tirar o fôlego (e o sono) dos especuladores imobiliários, como o IPTU progressivo, além de oferecer às administrações públicas possibilidades de gerenciamento da cidade, como as Operações Urbanas Consorciadas, este último mecanismo aprovado recentemente aqui em Foz, por uma lei de autoria do vereador Nilton Bobato (PCdoB), aguardando a regulamentação do prefeito.

A prefeitura de São Paulo, segundo o Jornal Folha da última sexta-feira (05/02), apresentou matéria mostrando a orientação do prefeito Kassab (DEM), levada à Câmara pelo vereador José Police Neto (PSDB) de se taxar pesadamente os imóveis desocupados do centro da capital paulista, através do IPTU progressivo, dobrando o valor do imposto ano a ano e, ao final de cinco anos, desapropriando o imóvel (que não receber um destino adequado) e efetuando o pagamento com títulos da dívida pública. Os prédios abandonados no centro da cidade, com financiamento da Caixa e recursos do Governo Federal, serão transformados em habitações populares, ocupando as áreas centrais, reduzindo a violência na região e criando opções de moradia de baixa e média renda com acesso aos equipamentos urbanos e culturais. De imediato, Kassab promete atuar em 53 imóveis de grande porte, totalizando 2.500 apartamento.

O exemplo paulista pode ser seguido por outras cidades, inclusive aqui em Foz do Iguaçu. Basta ver uma imagem aérea da cidade para perceber a enorme quantidade de imóveis desocupados nas áreas centrais e do entorno central. A diferença é que em São Paulo temos prédios desocupados e, aqui em Foz, terrenos vazios. Enquanto a especulação reserva os imóveis, a população de baixa e média renda vê-se obrigada a ocupar áreas cada vez mais distantes do centro da cidade, aumentando o tempo de viagem de casa ao trabalho e distanciando o cidadão dos serviços, das áreas de lazer e atividades culturais. O resultado é a necessidade de grandes investimentos em transportes e equipamentos públicos em áreas periféricas, enquanto áreas urbanizadas estão vazias. Todos nós acabamos pagando o preço da ganância de meia dúzia.

O IPTU progressivo em Foz seria uma das saídas para solucionar a aberração urbana dos vazios de terras em áreas centrais. A Constituição de nosso país diz, de forma clara, ser o solo urbano de caráter social e isso deve ser respeitado.

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* Luiz Henrique Dias da Silva é escritor, estudante de Arquitetura e Urbanismo e Ciências Sociais e comunista (convicto).

sábado, 30 de janeiro de 2010

A Vila "A"

Fui criado na Vila “A”. Já disse isso aqui neste espaço em várias ocasiões. Saí de lá há mais de dez anos mas, sempre que posso, fujo para aquele bairro para enfiar-me em um gramado ou comer ameixas em um de seus bosques. Lembro-me das brincadeiras, dos campeonatos de pipa e futebol, dos passeios ciclísticos, das corridas de carros no seu “autódromo de rua” e da qualidade de vida que sempre tivemos por lá.

Até que um dia, para o fim do bairro projetado para ser um exemplo urbanístico para todo o Brasil, apareceu por lá um indivíduo muito famoso: o especulador.

Primeiro, ele se instalou nas avenidas do entorno, colocando comércios do lado de fora da Vila, visando atender a população local. Certa vez, um embrião deste especulador conseguiu, por liberdades urbanísticas que só o mercado imobiliário especulativo sabe criar, passar para o outro lado da rua e se instalar onde haviam casas e, assim, tudo aquilo foi se transformando. As residências de madeira (ou alvenaria), típicas do bairro, foram virando bancos, centros comerciais, lojas, estacionamento de supermercado e pequenos mercados. Agora, pouco espaço tem para se construir mais comércios e eles estão de olho no interior da Vila.

Querem um mercado no campo de futebol e estão ocupando os terrenos que antes eram bosques. A igreja católica, que já tinha seu espaço em local nobre (ao lado do Hospital), ao contrário das outras religiões que ganharam terrenos na periferia do bairro, agora constrói sua “nova catedral” próxima ao Centro Executivo, no modelo que a Igreja gosta: construção lenta, erguida a bingos, rifas e doações. Não bastando o “templo” em aparente eterna construção, eles ocuparam um outro bosque nas proximidades, onde colhíamos ingá antigamente, e fizeram um local de orações. Sem falar que, para sua grande obra, fecharam uma rua. Ontem, quando passei por lá, descobri estarem alugando a frente do terreno da igreja para a mídia visual e já temos o primeiro outdoor no interior do bairro.

As vilas criadas por Itaipu são, como já disse, exemplos urbanísticos para a cidade. Foram feitas com método, técnica e valor ao ser humano, e seu modelo deve sair dos limites impostos pela geografia e ganhar a cidade e o país, mas o que vemos é o contrário. O modelo urbano falido e mercantilista brasileiro, do qual a igreja sempre esteve presente, graças a sua influência, invadindo o espaço das pessoas, descaracterizando as casas, derrubando a história, destruindo a área verde em nome do progresso e do concreto. E pouco podemos fazer para evitar. Para o Deus Mercado, nós, os preocupados, somos chatos e saudosistas. Se esta coluna não pode ser comprada, derrubada e no lugar dela, construído uma edificação horrorosa, igual às várias que surgem por toda a cidade, com salas comerciais, em cima e em baixo, então, caros leitores, não serve para nada.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Artigo

O Cidadão e suas Escolhas
* Luiz Henrique Dias da Silva

Temos uma ano eleitoral pela frente. 2010 nos dará a oportunidade de debater qual é o modelo de gestão federal mais comprometido com o país. Além disso, será um ano decisivo para o país mostrar ao mundo como saiu da crise financeira e entrou na rota do crescimento, desta vez, sustentável e inclusivo.

Apesar do grande prestígio do presidente Lula no exterior, sendo honrado com prêmios, muitos deles, nunca antes dados a presidentes de fora dos chamados “países desenvolvidos” e do respeito, de praticamente todas as nações democráticas e organismos internacionais, a acertada política da equipe econômica do Ministro Mantega, fazendo o Brasil sair da crise econômica mundial como um dos países menos afetados pelo tremor financeiro que devastou muitas nações, principalmente aquelas em que o neoliberalismo (que tenta voltar ao poder por aqui) estava enraizado no estado, a principal vitória do Brasil ainda é saber conciliar a política macroeconômica com a chamada microeconomia, aquela que afeta diretamente a vida dos cidadãos.

Paralelo as notícias de queda dos juros, Pré-Sal, o Programa de Aceleração do Crescimento, queda relativa no rombo da previdência, aumento das reservas e investimentos e declínio acentuado do risco-país, entramos em 2010 com a menor alíquota do imposto de renda das últimas duas décadas ( principalmente para as faixas de 3 a 5 salários mínimos), com um aumento substancial no salário mínimo do trabalhador, com reajuste no seguro desemprego, criação de milhões de vagas com carteira assinadas, seguro apagão, expansão do crédito imobiliário, entrada da Caixa Econômica no financiamento de bens duráveis, criação do Imposto sobre Fortuna, redução do IPI e da Cofins para produtos básicos ou, em alguns casos, para apoiar a indústria nacional, expansão do ensino público superior, fomento a indústria Naval, entre outras ações que afetam diretamente a vida dos cidadãos e trabalhadores. Para a inclusão social, o governo atua na expansão das verbas do FUNDEB, no consolidação de programas de vital importância para a emancipação do cidadão como o Prouni, o Plano Nacional de Banda Larga, o Programa Nacional de Acessibilidade universalização da emissão gratuita de Certidões de Nascimento, reestruturação do ensino técnico e o Bolsa Família (maior programa de redistribuição de renda do mundo).

O trabalhador brasileiro sente, assim, a presença do governo em seu cotidiano, no caminho ao trabalho, nos telejornais, na escola dos filhos e, principalmente, no início do mês, quando recebe seu salário e percebe que, pela primeira vez em nossa história recente, seu poder de compra aumentou mais que a inflação. Isso explica a popularidade do presidente Lula e por ele ser eleito a personalidade em quem o brasileiro mais confia, apesar da oposição golpista tentar relacionar tais números com os programas do governo que, segundo ela, são assistencialistas.

Essa eleição será o confronto entre o crescimento e o fracasso neoliberal. O debate entre os oito anos de governo do povo e a volta ao poder do grupo Tucano-democrata de FHC e suas privatizações e desmantelamento da educação, de Serra e sua falta de diálogo e de Yeda e seus cortes em serviços públicos, dessa gente preconceituosa que trabalha para os banqueiros, querem acabar com o PAC e tem urticárias quando veem o estado a serviço do povo. Não vai ser difícil escolher.


* Luiz Henrique Dias da Silva é escritor, estudante de Arquitetura e Urbanismo e Ciências Sociais e Secretário de Organização do PCdoB de Foz do Iguaçu.

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sábado, 23 de janeiro de 2010

O Retorno

Conta a história que, há alguns milhares de anos, durante a idade de pedra, os homens demonstravam a fertilidade feminina através de pequenas estátuas, mais tarde denominadas "musas" pelos paleontólogos, feitas com argila. Nelas, o rosto era diminuto, como se não tivessem importância, já os seios e o ventre sempre eram moldados de forma vigorosa e até exagerada, tudo para deixar clara a relação dessas partes da mulher com o desejo masculino. A evolução da humanidade mudou hábitos – sem mudar os hormônios – e o tempo passou, a sociedade mudou, mas, ainda hoje, os homens costumam ver algumas partes do corpo da mulher, atualmente incluindo as nádegas na lista pré-histórica, como objetos de desejo em seus sonhos mais secretos e, muitos desses homens, são capazes de fazer qualquer coisa para saciar tais desejos.
Sabendo disso, a Mercedes abriu, há quase trinta anos, o “Botequim da Esquina”. Uma famigerada casa de amores no cruzamento da Geraldo Inácio com a XV de Setembro, no Largo. O local, que inicialmente, atendia os empregados da construção do metrô, mas, com o final das obras, foi aprimorando a freguesia e, como dizem os modernos manuais de gestão, acompanhou a evolução da cidade e, assim, nunca entrou em crise. Pelo contrário. Cresceu e, de uma portinha ao lado do bar do Aristides, hoje ocupa três casarões antigos, além de possuir saídas para as duas ruas, um atrativo interessante para os maridos descobertos pelas esposas, principalmente as do bairro, frequentadoras assíduas das redondezas do local, sempre a caça dos esposos desaparecidos.
Dona Mercedes, que nunca foi uma mulher bonita, apesar da pele morena e dos loiros cabelos artificialmente pintados desde pequena. Usa sempre vestidos longos e saltos formidáveis, indumentada com brincos prateados, pulseiras e tornozeleiras douradas, unhas sempre grossas e pintadas com cores fortes, batom rosa e pegajoso e a sua famosa tira de tergal bordô no braço esquerdo, gerencia o negócio com mão de ferro, apenas contando com a ajuda de alguns poucos empregados. Diz-se uma empreendedora do amor. Toma conta da contabilidade, tem alvará, paga impostos sobre as bebidas que vende e assina a carteira dos garçons. Além disso, ajuda a polícia do bairro com a “mesada” que deixa para o capital do IV Batalhão, também frequentador da casa.
Abre o espaço para as meninas, selecionadas metodicamente entre todas as raparigas da vizinhança. Elas moram nos quartos que a velha aluga “só para moças” no fundo do terreno e ficam pelos salões, com vistas para as ruas, à noite, tomando (e pedindo) drinks, enquanto expõem suas grossas coxas, peitos protuberantes e quadris gigantescos aos passantes que, de passantes, tornam-se frequentadores, muitos assíduos, do botequim. Todas as noites são dezenas deles. Nos dias de pagamento nas indústrias do complexo sul, pode-se contar mais de cem homens e rapazes por ali, bebendo, conversando, rindo e procurando as meninas. O fluxo aos quartinhos é tão intenso que a própria Mercedes montou um esquema de circulação: seu caixa no fundo do salão principal, entre duas portas, que levam a dois corredores convergentes ao pátio que dá para os quartinhos. À direita lê-se em neon vermelho “somente ida” e à esquerda, em verde, “somente volta”. Foram instalados, inclusive, dois guichês, um para cada corredor, onde, na entrada, já se recebe o pagamento do programa e, na saída, a parte da moça, o “quinto”, já é repassada, assim que ela deixa o cliente novamente pelo salão, uma atitude comum no da Esquina, ensinada a todas as meninas pela própria dona do bordel, também rapariga durante os bons tempos da vida, agora aposentada com ironia do destino.
Os quartos, decorados por Mercedes, há vinte anos, são do tipo alcovas: sem janelas e penumbrosos. Ar, só pela porta e, quando esta está fechada, pelo pequeno cano que sai pela parede dos fundos em direção a algum lugar por onde ele possa sair ou entrar. As paredes são revestidas por um antigo “veludo de parede” vendido por um viajante, de acordo com o qual, é de confecção francesa. O tecido, mofado pelas inúmeras infiltrações, é violeta. O mau-cheiro, amenizado pelo perfume das moças, sempre doce, forte e exageradamente (e intencionalmente) espalhado não só pela roupa, mas por todo o quarto. Antes de atender aos pedidos, todas as meninas são instruídas a fazer as massagens que aprendem no treinamento antecedente ao ingresso na casa, deitando o cliente na cama redonda, com cabeceira revestida em couro preto pregado em forma triangular e com luzes vermelhas intuitivamente instaladas na parte de baixo do estrado, iluminando o tapete, do mesmo veludo da parede, colocado ali para esconder o chão de cimento e sem acabamento. Não há banheiro nas alcovas, apenas uma pia. Ali, naquele ambiente fabuloso, os homens do bairro vivem suas aventuras, resolvem seus desamores conjugais e os meninos perdem a virgindade de forma instrutiva e inesquecível.
Tudo acontece ao contar dos ponteiros do relógio de Dona Mercedes.
Completados os exatos 55 minutos (os cinco que completam a hora serve para arrumar o quarto para o próximo cliente) o Anastácio, um pretinho adotado pela casa com cinco anos, agora com doze, dava diversas golpeadas na porta de madeira fechada com uma pequena tranca de madeira, avisando que o horário já se esgotara. Para agilizar este processo de troca, a moça era sempre instruída a, durante a massagem, tirar as roupas do homem e colocá-las sempre à direita da cama. Em seguida, tudo se repetia, das seis da tarde até as cinco da manhã, todas os dias, inclusive os santos, por aquelas bandas da cidade.
Hoje, porém, apareceu no Botequim da Esquina o Geraldo. Um paraibano bravo, antigo conhecido daquelas bandas. Era famoso por pagar rodadas de Campari aos frequentadores e por sempre querer arranjar briga ao amanhecer. Há anos havia sido preso por bater e arrancar os cabelos, com as mãos, da própria mulher, Maria Aparecida, uma mocinha nova, triste, magra esquelética e amarelada, quando esta foi buscá-lo na porta do Bordel, num sábado, com a sacola de mercado vazia em mãos e gritando que há dias não havia mais leite para os meninos.
O Geraldo nunca aceitou críticas, ainda mais da Maria Aparecida.
Pra piorar, o agravante da prisão foi por ele já estar foragido, há tempos, por alguns roubos em Jundiaí. Contavam as más línguas que, depois da prisão do marido, sua esposa, sem nunca o ter visitado na cadeia, amigou-se com um crente, o Irineu, despertando a ira do Geraldo. Durante os anos, ele escreveu bilhetes e os enviou a mulher, com cópia para seus amigos de farra, falando sobre o dia que fugiria do presídio e voltaria para matar a mulher, o novo marido, os dois filhos e, depois, ir até o Bordel, pagar uma rodada e transar com a velha dona do estabelecimento. Os bilhetes, causadores de terror na jovem Aparecida – e no “irmão” Irineu – e, apesar de não acreditar na promessa e nunca ter confessado sentir, calafrios excitantes na Mercedes. Mas ele apareceu, usando o velho terno listrado e sapatos de bico branco.
“Cumpriu a promessa” – disse o Anastácio para a dona Mercedes, quando o burburinho chegou ao caixa. “Vai se deitar com ele?”. “Cale a sua boca, moleque” – respondeu prontamente a velha, enquanto, rapidamente, rebocava o batom em frente ao pequeno espelho por de trás do balcão, antes que o Geraldo a visse. O Mathias, garçom da casa desde a abertura, chegou correndo e disse pelo buraco no vidro “O Geraldo está aí. Disse ser um homem de palavra. Contam que subiu a viela, esfaqueou o Irineu e a Maria Aparecida. Só não matou os meninos porque eles estão na colônia de férias da igreja. Mandou descer a rodada de Campari e quer falar com a senhora”. Sem pestanejar, ela se levantou do balcão – depois de vinte e sete anos sem deixar seu posto ou se deitar com alguém – e bradou “Anastácio, prepare o meu quarto”. O preto olhou o velho garçom fixamente, por uns cinco segundos, sem saber ao certo o que fazer.
“Vamos! Você é surdo? Faça o que ela mandou!”. O menino saiu em alta velocidade pelo corredor de “somente volta” e abriu a porta do velho quarto da dona do Bordel.
Era um ambiente hostil a qualquer ser humano, mas excitante a qualquer frequentador de casa de amores.
Uma suíte. A única de todo o estabelecimento. Tanto o teto, quanto todas as paredes, com exceção da amarela, de madeira, onde ficava a porta, eram espelhadas. Duas luzes verdes e uma vermelha – as outras treze estavam queimadas – produziam um efeito bizarro de luz e sombra. O cano que trazia ar de fora era maior que o dos outros quartos e dotado de uma telinha, esta servia de mosquiteiro, mas não evitava o cheiro que vinha do córrego do bairro, que passava há poucos metros dali. O menino passou um spray de lavanda por todo o ambiente e bateu as almofadas. Depois, em meio à poeira, correu para avisar que tudo estava pronto. Enquanto isso, no salão, Mercedes foi ao até o bar. Há anos ela não ia até lá durante o funcionamento. Sentou e pediu um Martini, sem gelo, com morangos. Cruzou as pernas, balançou a cabeça, sem, no entanto, mover os cabelos, duros pelo laquê, e pouca atenção deu para todos os homens ali presentes que, boquiabertos, admiravam sua desenvoltura e técnica. Apesar de seus sessenta e oito anos, fazia aquilo com tanta magia, mostrando a importância da inexorável união entre o dom e a experiência.
O Geraldo aproximou-se.
Público atento. “Olá” – disse ela sorrindo, enquanto tragava a cigarrete de menta, como nos velhos tempos. “Rapariga” – bradou, apertando o braço da saudosa prostituta. “Pera lá, coração” – suave – “sou de família”. Sorriu. “Se quer, tem que conquistar”. Todos riram. O Anastácio subiu até o Mezanino, onde ficavam os mais nobres clientes e dava para ter uma vista completa do salão. “Me pague uma bebida”. “Não tenho tempo, beleza. Sou o cara! Toda a polícia da cidade está atrás de mim. Vamos para seu quarto. Quero saber se as histórias que ouço são reais”. Ela virou o Martini. Passou a mão no prato de amendoins do cliente ao lado e encheu a boca de esparsos dentes. Limpou as mãos no vestido e saiu caminhando em direção ao quarto. Ele virou-se para os presentes e ergueu os dois braços. Aos aplausos – e gritos do Anastácio – a seguiu.
Ela caminhou até o final do corredor de quartos e abriu a porta. Ascendeu a iluminação. “Entre”. Entraram. Porta fechada, ele bateu com a palma da mão esquerda na coxa direita da velha que, por reflexo, ergueu-a e cercou-lhe o quadril com a perna. Parecia uma meretriz de vinte anos. Ele gostou. Com a mão direita pegou seio esquerdo e se pôs a apertá-lo enquanto ela, com as duas mãos, acariciava-lhe os ombros. “Quer uma massagem, Geraldo”. “Eu lá tenho tempo pra essas coisas? Deite-se ali ou agarro-lhe aqui mesmo na parede. Não sei o que é mulher há quatro anos e, pelo que fiz, vou passar o resto de minha vida ser saber”. Ela soltou-lhe a cintura e, num certeiro golpe, jogou os cinquenta quilos e pouco mais de um metro e sessenta e cinco do Geraldo sobre a cama. Ergueu o vestido e tirou-o pela cabeça, expondo a grande calcinha de rendas, roxa, enquanto ele abria o zíper da calça. Puxou-lhe os sapatos de malandro e chupou-lhe o dedo maior do pé, lambendo a grossa unha preta sem, no entanto, tirar os olhos dos olhos daquele paraibano que a ela, agora, possuía. Amaram-se. Ao terminar, ele encostou a cabeça no ombro de Mercedes, fingindo não ouvir as vozes por detrás da porta. Era a polícia. Vestiu-se, arrumou o chapéu e entregou-se. Só fez questão de deixar o batom que estava espalhado por todo o colarinho e pescoço. Ela colocou o vestido, deitou por um minuto na cama, depois arrumou os lençóis, a colcha de bordado inglês e apagou as luzes. Voltou para o seu caixa, onde Mathias tomava conta, e, retocando o batom, viu a viatura saindo da frente do bordel, enquanto trocava olhares com o Geraldo.

Se a cidade convida, o cidadão responde

Caro leitor, tenho uma tese de que, se a cidade chama, o cidadão responde.

Ontem caminhava eu pela – tão citada nesta coluna – Avenida Paraná, como faço em muitos finais de tarde de minha vida, e, com também é meu costume, reparava nas pessoas, nos grupos e nos espaços, sempre querendo entender um pouco mais nossa cidade e sociedade e, é claro, expor tais pensamentos aqui, ali e acolá, nestes veículos em que escrevo e você ouve minhas letras.

Tenho percebido um número crescente de pessoas frequentando a pista de caminhada, todos os dias. Não acredito ser o motivo a crescente preocupação com o corpo ou com o a saúde. Creio ser o maior responsável por tal aumento o próprio espaço que, aos poucos, começa a ser percebido por mais e mais cidadãos, usuários em potencial. Além das caminhadas, há namoros, amigos tomando mate, crianças utilizando os playgrounds, jovens nas quadras e idosos, muitos interessados nas atividades oferecidas no quiosque do Caminha Foz, instalado no meio do trajeto da pista. Os motoristas – antes simples passantes da Avenida – agora reparam mais nas pessoas e, por fim, acabavam voltando, sozinhos ou com a família.

Esta é mais uma prova de que, se a cidade chama, o cidadão responde. Se a cidade chamar com violência, as pessoas responderão se trancando em casa. Se ela nos chamar com espaços abandonados ou com a falta destes, todos se trancarão em malditos Shoppings. Mas, se ao contrário, a cidade chamar a todos com espaços públicos acessíveis, conservados e convidativos, a resposta virá com bermudas, tênis e camisetas, com bicicletas, skates, bolas e patins, em plena rua e em plena luz do dia.

Assim, alinhados ao combate à violência (não reprimindo, mas na base estrutural do processo), ao investimento em educação, cultura e saúde (áreas básicas para produzir qualidade de vida e elevar a auto-estima da população), a cidade precisa criar equipamentos públicos e espaços (não só turísticos) a serem frequentados pelos moradores e cuidar para tais locais não se tornarem pontos de violência, uso de drogas ou venda indiscriminada de bebidas (como acontece no Gramadão da Vila A, onde menores se deliciam durante todo o final de semana com bebidas vendidas ali mesmo).

Devemos construir uma cidade - a casa do homem – que não se esconda por trás de muros altos e cercas elétricas, mas para ser uma extensão do quintal das pessoas.

***

* Luiz Henrique Dias da Silva é escritor, ator, estudante de Urbanismo e Sociologia e comunista (convicto). Ele escreve todas as segundas neste espaço e, quase, diariamente, em seu blog acasadohomem.blogspot.com , onde faz uma análise crítica da cidade e, vez em quando, publica um conto, além de escrever em algumas revistas. O Luiz é daqueles caras interessados em ver a cidade melhor mas, para isso, ele precisa trabalhar e, é claro, ficar escrevendo esses textinhos mistos de “auto-ajuda e reclamações gerais” e publicando por aí. Achamos que o Luiz não tem muito o que fazer.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Novidade (para mim, claro).

História da América, pela América

Os pecados do Haiti

por Eduardo Galeano

'Loteria', de Yordan Dabady. A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estado-unidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

'Cavalheiro bem apessoado', de Pierre Louis Riche. O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:
– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilómetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objectivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

'A reunião', de Aland Estime. O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

'Lavadeiras', Watson Etienne. A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade

Nem sequer Simón Bolíver, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete nave e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um génio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pénis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indemnização gigantesca, a modo de perdã por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

"CADÊ O AUTÓDROMO"

Novamente fui surpriendido com um texto sobre o tal do autódromo na cidade. Da última vez (quando publiquei no jornal o texto que publico novamente abaixo "Autódromo em Foz", recebi comentários do gênero "... insanidade" ou "... a polícia gosta de ficar em cima dos amantes da velocidade, como eu" para justificar a tal pista de corrida aqui na cidade. Ouvi, também, comentários a respeito do número de pessoas que assistiriam as corridas (até 25 mil), gerando divisas. Sabemos que, estas pessoas, podem gastar seu dinheiro não só em corridas, mas em outras atividade mais lúdicas e inteligentes. Aí está o vale-cultura que esta gente que pede o autódromo nem conhece ou desconhece.

Respondi o texto do SPAM da seguinte maneira:

Nossa cidade passa par um ciclo de desenvolvimento nunca antes atingido, com investimentos municipais, estaduais e federais maciços na área de Educação Profissional e Superior, com a instalação do novo Senai, Senac, Unila, IFET, extensão da UTFPR, UAB e ações do ProUni frente às instituições particulares, Centros de Convivência Escola Bairro em pleno (e reconhecido) funcionamento, além de ações na área de Segurança Pública (Pronasci) e Saúde, em uma ação integrada entre governos das três esferas e vem um SPAM pedindo "cadê o autódromo?". Ora, a cidade ainda tem muito o que fazer e construir e muito para se preocupar com todas as conquistas que visam mudar nossa matriz econômica e nossa condição social antes de pensar em um LOCAL ONDE MEIA DÚZIA DE PESSOAS BATEM RACHA DURANTE O ANO TODO E, VEZ EM QUANDO, TRAZEM UMA ETAPA DE CORRIDA DE CAMINHÕES, que não acrescentam em nada a vida dos cidadãos e a cidade em si. E não adianta contextar o que é claro: em Cascavel e Santa Cruz do Sul, cidades em que o movimento "Cadê o Autódromo" apareceram e se intitularam "a vontade da população", construiram-se elefantes brancos inúteis, elististas e eventos igualmente inúteis e elitistas.

E sigo firme, batendo o pé contra o atraso. Eduardo Galeano, que terei o prazer de conhecer em abril, falava sobre o culto do automóvel na América Latina, fruto da influência estadunidense no continente e vemos, nestas ações, comuns em cidades de pensamento pequeno, tal influência chegar por aqui. Fico triste, confesso.

REPUBLICANDO - AUTÓDROMO EM FOZ?

Perto da minha casa existe uma farmácia. E é lá que eu vou, vez em quando, comprar crédito para celular, pasta de dente e qualquer outra necessidade “emergencial”. No caixa, costumo pegar algum folheto de distribuição gratuita para ler no caminho de volta. Até aí a vida segue normalmente.
Certo dia, na mesma farmácia, me deparei com um jornal intitulado “O Autódromo”, que me chamou atenção. Não que eu seja um apaixonado pelo automobilismo, mas simplesmente pelo nome. Achei curioso. Resolvi levar para casa e dar uma boa olhada no material. Confesso que não consegui levar o jornal nem por duas quadras. Acabei abandonando na primeira lixeira que encontrei.
O motivo? Simples: como pode um grupo exigir que o município que eu moro, nasci e vivo gaste dinheiro com a construção de um autódromo quando ainda não resolvemos todas os problemas da saúde pública de nossa cidade? Ou, como podemos pensar em uma gastança generalizada de dinheiro se, apesar dos importantes avanços, ainda precisamos melhorar o investimento em infra-estrutura urbana e saneamento básico para a população? Como pode um grupo de meia dúzia de “apaixonados por arrancada” reclamar do corte de 500 mil reais que seria destinado para a compra de um terreno pela prefeitura para a construção do tal autódromo quando vemos por toda cidade gente morando na beira de valetões? A qual nível chega a mesquinharia de chamar de “lazer” ou “diversão” para a população algo que é limitado a poucos e não atenderia as demandas da maioria dos cidadãos de nossa cidade? Ora pois, desculpem-me o desabafo mas, se quiserem um autódromo, que construam com o dinheiro deles e deixem a cidade gastar com o que precisa. Se são apaixonados por carros velozes, ótimo. Parabéns. Mas não seria melhor utilizarem seu veículo de informação para pedir mais segurança pública (ou as blitz atrapalham a turma da velocidade?), mais condições básicas para a população e mais recursos nas áreas sociais?
Mas olhem pela janela de seus possantes motores que a cidade ainda tem muito pra gastar com nossa gente e isso deve estar (e está sendo colocado) em primeiro lugar. E se não olharem este texto como uma provocação, mas como uma crítica real e bem fundada, perceberão a gravidade do pedido e terão, tenho certeza, vergonha de exigirem algo para poucos quando ainda falta muito para muitos. É tudo uma questão de prioridade.

Luiz Henrique é escritor, professor e estudante de Arquitetura e Urbanismo. Dia desses, ele discutia com um amante do automobilismo sobre o autódromo de Foz. O garoto motorizado dizia que Foz está atrás de Cascavel que já construiu seu autódromo. O Luiz então pensou: “mas existem bairros de Cascavel que ainda não tem asfalto. Como podem ter gastado dinheiro com um empreendimento desses? E os cidadãos, onde ficam?”. O Luiz sempre foi um idealista...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Retorno

* Luiz Henrique Dias da Silva

Conta a história que, há alguns milhares de anos, durante a idade de pedra, os homens demonstravam a fertilidade feminina através de pequenas estátuas, mais tarde denominadas "musas" pelos paleontólogos, feitas com argila. Nelas, o rosto era diminuto, como se não tivessem importância, já os seios e o ventre sempre eram moldados de forma vigorosa e até exagerada, tudo para deixar clara a relação dessas partes da mulher com o desejo masculino. A evolução da humanidade mudou hábitos – sem mudar os hormônios – e o tempo passou, a sociedade mudou, mas, ainda hoje, os homens costumam ver algumas partes do corpo da mulher, atualmente incluindo as nádegas na lista pré-histórica, como objetos de desejo em seus sonhos mais secretos e, muitos desses homens, são capazes de fazer qualquer coisa para saciar tais desejos.

Sabendo disso, a Mercedes abriu, há quase trinta anos, o “Botequim da Esquina”. Uma famigerada casa de amores no cruzamento da Geraldo Inácio com a XV de Setembro, no Largo. O local, que inicialmente, atendia os empregados da construção do metrô, mas, com o final das obras, foi aprimorando a freguesia e, como dizem os modernos manuais de gestão, acompanhou a evolução da cidade e, assim, nunca entrou em crise. Pelo contrário. Cresceu e, de uma portinha ao lado do bar do Aristides, hoje ocupa três casarões antigos, além de possuir saídas para as duas ruas, um atrativo interessante para os maridos descobertos pelas esposas, principalmente as do bairro, frequentadoras assíduas das redondezas do local, sempre a caça dos esposos desaparecidos.

Dona Mercedes, que nunca foi uma mulher bonita, apesar da pele morena e dos loiros cabelos artificialmente pintados desde pequena. Usa sempre vestidos longos e saltos formidáveis, indumentada com brincos prateados, pulseiras e tornozeleiras douradas, unhas sempre grossas e pintadas com cores fortes, batom rosa e pegajoso e a sua famosa tira de tergal bordô no braço esquerdo, gerencia o negócio com mão de ferro, apenas contando com a ajuda de alguns poucos empregados. Diz-se uma empreendedora do amor. Toma conta da contabilidade, tem alvará, paga impostos sobre as bebidas que vende e assina a carteira dos garçons. Além disso, ajuda a polícia do bairro com a “mesada” que deixa para o capital do IV Batalhão, também frequentador da casa.

Abre o espaço para as meninas, selecionadas metodicamente entre todas as raparigas da vizinhança. Elas moram nos quartos que a velha aluga “só para moças” no fundo do terreno e ficam pelos salões, com vistas para as ruas, à noite, tomando (e pedindo) drinks, enquanto expõem suas grossas coxas, peitos protuberantes e quadris gigantescos aos passantes que, de passantes, tornam-se frequentadores, muitos assíduos, do botequim. Todas as noites são dezenas deles. Nos dias de pagamento nas indústrias do complexo sul, pode-se contar mais de cem homens e rapazes por ali, bebendo, conversando, rindo e procurando as meninas. O fluxo aos quartinhos é tão intenso que a própria Mercedes montou um esquema de circulação: seu caixa no fundo do salão principal, entre duas portas, que levam a dois corredores convergentes ao pátio que dá para os quartinhos. À direita lê-se em neon vermelho “somente ida” e à esquerda, em verde, “somente volta”. Foram instalados, inclusive, dois guichês, um para cada corredor, onde, na entrada, já se recebe o pagamento do programa e, na saída, a parte da moça, o “quinto”, já é repassada, assim que ela deixa o cliente novamente pelo salão, uma atitude comum no da Esquina, ensinada a todas as meninas pela própria dona do bordel, também rapariga durante os bons tempos da vida, agora aposentada com ironia do destino.

Os quartos, decorados por Mercedes, há vinte anos, são do tipo alcovas: sem janelas e penumbrosos. Ar, só pela porta e, quando esta está fechada, pelo pequeno cano que sai pela parede dos fundos em direção a algum lugar por onde ele possa sair ou entrar. As paredes são revestidas por um antigo “veludo de parede” vendido por um viajante, de acordo com o qual, é de confecção francesa. O tecido, mofado pelas inúmeras infiltrações, é violeta. O mau-cheiro, amenizado pelo perfume das moças, sempre doce, forte e exageradamente (e intencionalmente) espalhado não só pela roupa, mas por todo o quarto. Antes de atender aos pedidos, todas as meninas são instruídas a fazer as massagens que aprendem no treinamento antecedente ao ingresso na casa, deitando o cliente na cama redonda, com cabeceira revestida em couro preto pregado em forma triangular e com luzes vermelhas intuitivamente instaladas na parte de baixo do estrado, iluminando o tapete, do mesmo veludo da parede, colocado ali para esconder o chão de cimento e sem acabamento. Não há banheiro nas alcovas, apenas uma pia. Ali, naquele ambiente fabuloso, os homens do bairro vivem suas aventuras, resolvem seus desamores conjugais e os meninos perdem a virgindade de forma instrutiva e inesquecível.

Tudo acontece ao contar dos ponteiros do relógio de Dona Mercedes.

Completados os exatos 55 minutos (os cinco que completam a hora serve para arrumar o quarto para o próximo cliente) o Anastácio, um pretinho adotado pela casa com cinco anos, agora com doze, dava diversas golpeadas na porta de madeira fechada com uma pequena tranca de madeira, avisando que o horário já se esgotara. Para agilizar este processo de troca, a moça era sempre instruída a, durante a massagem, tirar as roupas do homem e colocá-las sempre à direita da cama. Em seguida, tudo se repetia, das seis da tarde até as cinco da manhã, todas os dias, inclusive os santos, por aquelas bandas da cidade.

Hoje, porém, apareceu no Botequim da Esquina o Geraldo. Um paraibano bravo, antigo conhecido daquelas bandas. Era famoso por pagar rodadas de Campari aos frequentadores e por sempre querer arranjar briga ao amanhecer. Há anos havia sido preso por bater e arrancar os cabelos, com as mãos, da própria mulher, Maria Aparecida, uma mocinha nova, triste, magra esquelética e amarelada, quando esta foi buscá-lo na porta do Bordel, num sábado, com a sacola de mercado vazia em mãos e gritando que há dias não havia mais leite para os meninos.

O Geraldo nunca aceitou críticas, ainda mais da Maria Aparecida.

Pra piorar, o agravante da prisão foi por ele já estar foragido, há tempos, por alguns roubos em Jundiaí. Contavam as más línguas que, depois da prisão do marido, sua esposa, sem nunca o ter visitado na cadeia, amigou-se com um crente, o Irineu, despertando a ira do Geraldo. Durante os anos, ele escreveu bilhetes e os enviou a mulher, com cópia para seus amigos de farra, falando sobre o dia que fugiria do presídio e voltaria para matar a mulher, o novo marido, os dois filhos e, depois, ir até o Bordel, pagar uma rodada e transar com a velha dona do estabelecimento. Os bilhetes, causadores de terror na jovem Aparecida – e no “irmão” Irineu – e, apesar de não acreditar na promessa e nunca ter confessado sentir, calafrios excitantes na Mercedes. Mas ele apareceu, usando o velho terno listrado e sapatos de bico branco.

“Cumpriu a promessa” – disse o Anastácio para a dona Mercedes, quando o burburinho chegou ao caixa. “Vai se deitar com ele?”. “Cale a sua boca, moleque” – respondeu prontamente a velha, enquanto, rapidamente, rebocava o batom em frente ao pequeno espelho por de trás do balcão, antes que o Geraldo a visse. O Mathias, garçom da casa desde a abertura, chegou correndo e disse pelo buraco no vidro “O Geraldo está aí. Disse ser um homem de palavra. Contam que subiu a viela, esfaqueou o Irineu e a Maria Aparecida. Só não matou os meninos porque eles estão na colônia de férias da igreja. Mandou descer a rodada de Campari e quer falar com a senhora”. Sem pestanejar, ela se levantou do balcão – depois de vinte e sete anos sem deixar seu posto ou se deitar com alguém – e bradou “Anastácio, prepare o meu quarto”. O preto olhou o velho garçom fixamente, por uns cinco segundos, sem saber ao certo o que fazer.
“Vamos! Você é surdo? Faça o que ela mandou!”. O menino saiu em alta velocidade pelo corredor de “somente volta” e abriu a porta do velho quarto da dona do Bordel.

Era um ambiente hostil a qualquer ser humano, mas excitante a qualquer frequentador de casa de amores.

Uma suíte. A única de todo o estabelecimento. Tanto o teto, quanto todas as paredes, com exceção da amarela, de madeira, onde ficava a porta, eram espelhadas. Duas luzes verdes e uma vermelha – as outras treze estavam queimadas – produziam um efeito bizarro de luz e sombra. O cano que trazia ar de fora era maior que o dos outros quartos e dotado de uma telinha, esta servia de mosquiteiro, mas não evitava o cheiro que vinha do córrego do bairro, que passava há poucos metros dali. O menino passou um spray de lavanda por todo o ambiente e bateu as almofadas. Depois, em meio à poeira, correu para avisar que tudo estava pronto. Enquanto isso, no salão, Mercedes foi ao até o bar. Há anos ela não ia até lá durante o funcionamento. Sentou e pediu um Martini, sem gelo, com morangos. Cruzou as pernas, balançou a cabeça, sem, no entanto, mover os cabelos, duros pelo laquê, e pouca atenção deu para todos os homens ali presentes que, boquiabertos, admiravam sua desenvoltura e técnica. Apesar de seus sessenta e oito anos, fazia aquilo com tanta magia, mostrando a importância da inexorável união entre o dom e a experiência.

O Geraldo aproximou-se.

Público atento. “Olá” – disse ela sorrindo, enquanto tragava a cigarrete de menta, como nos velhos tempos. “Rapariga” – bradou, apertando o braço da saudosa prostituta. “Pera lá, coração” – suave – “sou de família”. Sorriu. “Se quer, tem que conquistar”. Todos riram. O Anastácio subiu até o Mezanino, onde ficavam os mais nobres clientes e dava para ter uma vista completa do salão. “Me pague uma bebida”. “Não tenho tempo, beleza. Sou o cara! Toda a polícia da cidade está atrás de mim. Vamos para seu quarto. Quero saber se as histórias que ouço são reais”. Ela virou o Martini. Passou a mão no prato de amendoins do cliente ao lado e encheu a boca de esparsos dentes. Limpou as mãos no vestido e saiu caminhando em direção ao quarto. Ele virou-se para os presentes e ergueu os dois braços. Aos aplausos – e gritos do Anastácio – a seguiu.

Ela caminhou até o final do corredor de quartos e abriu a porta. Ascendeu a iluminação. “Entre”. Entraram. Porta fechada, ele bateu com a palma da mão esquerda na coxa direita da velha que, por reflexo, ergueu-a e cercou-lhe o quadril com a perna. Parecia uma meretriz de vinte anos. Ele gostou. Com a mão direita pegou seio esquerdo e se pôs a apertá-lo enquanto ela, com as duas mãos, acariciava-lhe os ombros. “Quer uma massagem, Geraldo”. “Eu lá tenho tempo pra essas coisas? Deite-se ali ou agarro-lhe aqui mesmo na parede. Não sei o que é mulher há quatro anos e, pelo que fiz, vou passar o resto de minha vida ser saber”. Ela soltou-lhe a cintura e, num certeiro golpe, jogou os cinquenta quilos e pouco mais de um metro e sessenta e cinco do Geraldo sobre a cama. Ergueu o vestido e tirou-o pela cabeça, expondo a grande calcinha de rendas, roxa, enquanto ele abria o zíper da calça. Puxou-lhe os sapatos de malandro e chupou-lhe o dedo maior do pé, lambendo a grossa unha preta sem, no entanto, tirar os olhos dos olhos daquele paraibano que a ela, agora, possuía. Amaram-se. Ao terminar, ele encostou a cabeça no ombro de Mercedes, fingindo não ouvir as vozes por detrás da porta. Era a polícia. Vestiu-se, arrumou o chapéu e entregou-se. Só fez questão de deixar o batom que estava espalhado por todo o colarinho e pescoço. Ela colocou o vestido, deitou por um minuto na cama, depois arrumou os lençóis, a colcha de bordado inglês e apagou as luzes. Voltou para o seu caixa, onde Mathias tomava conta, e, retocando o batom, viu a viatura saindo da frente do bordel, enquanto trocava olhares com o Geraldo.



Visões


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REVISTAS 100 FRONTEIRAS

Foz e o Futuro

* Luiz Henrique Dias da Silva

Quando escolhi ir embora de Foz, em 1999, eu, assim como muitos amigos, não via perspectiva em nossa cidade. Era um tempo de terrível recessão e a cidade era atingida diretamente pela crise econômica nacional. Na época eu não haviam empregos, os serviços públicos eram praticamente inexistentes e os jovens não tinham muitas opções de lugares para estudar. Era ir embora ou embarcar no que chamávamos “canoa furada”. Fui. Fomos. Eu e muitos de meus amigos.

Depois de tempos longe de casa, voltamos a conversar por meio da internet e começamos a trocar as boas novas sobre a cidade e, há aproximadamente três anos, todos nós resolvemos voltar à Foz para tentar contribuir para um processo que parecia estar começando e precisava de mão da obra nativa para se consolidar. Sabíamos que pouco era possível fazer individualmente, mas acreditávamos também que, se cada um fizesse sua parte, poderíamos, no somatório das ações, fazer a diferença.

Hoje temos uma cidade nova, com problemas, mas com perspectivas. Os serviços públicos parecem começar a funcionar (dia desses fui a um hospital público e tive um atendimento que, confesso, nunca havia tido). Além disso, Unila, IFET, UAB, PTI e UTFPR são siglas inseridas em nossa cidade por uma ação conjunta de governos (estadual, federal e municipal), entidades, empresas, cidadãos, estudantes, turistas e todos aqueles que constroem nossa cidade a cada dia, seja com suas ações, com suas divisas ou mesmo com seu trabalho. O que antes era “a cidade de contrabando e violência” pode agora se tornar um pólo turístico e universitário não só do país, mas de toda a América Latina.

A cidade caminha para um período único e cabe a nós (todos nós) ajudarmos Foz a “agarrar o bonde” do desenvolvimento sustentável e duradouro. E como você pode fazer sua parte? Ficando, trabalhando e ajudando a criar uma cidade melhor para nós e nossos filhos. É só não fazer como eu, há dez anos, fiz e, caso faça, siga meu conselho, volte que é aqui o futuro.

* Luiz Henrique Dias da Silva (luizharq@gmail.com)é escritor, estudante de Arquitetura e Urbanismo e comunista (convicto). Ele escreve em seu blog acasadohomem.blogspot.com O Luiz é daqueles caras visionários e motivados e acredita em uma Foz do Iguaçu transformada, desde que trabalhemos para isso. Será que ele está certo? Ficaremos e pagaremos para ver.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

ÚNICO: O BILHETE ELETRÔNICO QUE INICIA UMA TRANSFORMAÇÃO

Entra em vigor na cidade o Sistema Único de bilhetagem eletrônica para o transporte coletivo de Foz do Iguaçu. O Sistema, que já existe na maioria das médias e grandes cidades do país, finalmente chega à cidade e, apesar das divergências sobre a eficiência do bilhete eletrônico da maneira que está sendo implantado, o Único poderá trazer parâmetros mais precisos sobre o transporte coletivo de Foz do Iguaçu como, por exemplo, o número de usuários do sistema, os horários em que a capacidade das linhas é atingida e, assim, auxiliar no planejamento e nas ações ligadas ao Transporte Público.

As críticas ao Único estão concentradas na forma como ele foi implantado: organizado e gerenciado pelas empresas e, apenas, fiscalizado pelo órgão municipal responsável pelo setor. Segundo especialistas, o gerenciamento da malha deveria ficar por conta da prefeitura, uma vez que o transporte coletivo é uma necessidade básica do trabalhador e do estudante e, em algumas famílias, segundo o IBGE, representa até 30% dos gastos do lar.

O Sistema de Transporte de Foz, apesar de algumas melhorias, está longe de atender plenamente a população, principalmente a mais carente, justamente quem mais precisa se deslocar utilizando ônibus.

Os trajetos ainda são demorados, em função do aproveitamento de um mesmo ônibus na unificação de linhas, da falta de mais terminais urbanos e, principalmente de uma maior oferta de veículos e linhas.

Mesmo assim, o Único, que é um pequeno, mas importante avanço, deve sim ser comemorado, pois é o início de um processo de transformação que não pode parar.